há gestos que partem das mãos de uma criança 
e se envolvem no voo alado das borboletas

há um pulsar de vida que não cessa
poemas singelos que o mundo lhe oferta 
a cada flor ou estrela que guia os seus passos

há pinturas que se movem bem dentro dos seus olhos
suspiros e sentires que se expandem em voo livre 
utopias que se afiguram e se perdem com a idade

oh, como amo a sua simplicidade de sentir 
de ver a vida a cor e versos 
e de saber tocá-la com o Coração

esse jeito de abrigar o mundo 
na palma das mãos 
e de ensiná-lo a voar feito pássaro de sonhos

possa eu despertar na luz cândida do seu olhar 
e assim (re)conhecer, nem que seja um pouco 
da verdade que o seu coração conhece 

é de louvar os (en)cantos 
que um coração de criança sonha, toca e percebe


da imensa e insólita maresia que nos separa
um marulhar de cânticos desfolhados

do tempo que voa até mim
o gesto lírico da emoção

das mãos do alfaiate do universo
a canção do mundo

entre muitos, 
um fio de palavras de veludo
a tecer a nudez de um verso

no chão molhado
o orvalho gotejante

nas folhas que o vento sustenta
um caminho de mil cores

lugares onde o coração se encanta
a cada gesto que a natureza inventa

(... ainda que os meus olhos não alcancem, o meu coração jamais esquece: 
pude perceber em vós asas bem maiores do que as dos pássaros da terra...)

lembro-me das cortinas de tule branco
por onde espreitava a vida com que sonhava

e no corpo que me rejeitava em tenra idade
um poço de sonhos e saudade, era tudo o que eu tinha

lembro-me que pela janela inventava-me no mundo
à noite, beijava a face da lua

lembro-me das histórias de (en)cantar
a entoar do fundo do mar

do sonho de querer abraçar o mundo 
e não mais soltar

e de cada vez que o corpo pedia sono
o cravar de mais um sonho

sei agora que jamais poderei galgar
ao exílio do mundo

cativo da Vida, sou pássaro sem asas
num Voo sem volta

(Fragmento de um conto)

(...) Sem que se tivesse dado conta, o dia apagou-se. 
Num aconchego cósmico, a noite chegara de mansinho, 
tão brilhante que fazia qualquer olhar ancorar-se na lua (...) 

A manhã chegou perfumada pelas amendoeiras doces; 
e enquanto os pintassilgos debicavam botões-silvestres, 
os cometas escondiam-se do outro lado do mundo. 

(...) O olhar curioso não lhe cabia no rosto.


era para nós uma estreia, essa tela
uma pintura de verde mesclada de branco
uma obra do vento embalada no tempo



(do poema, Inocência, 
in Nas asas do amor)

Sob a estrela luminosa
sol ou lua
a vida corre e tropeça
como criança
sorridente e nua
(...) vestindo a inocência
percebe os detalhes
que à maioria dos já vividos
escapam ao primeiro encontro.
um tempo que não é tempo
um tempo onde não há lugar a calendários
nem relógios
um tempo onde o momento
não tem fim
(fragmento de um conto)

A canção soava enquanto um pincel que não se podia ver, 

as pintava naquela doce e inspiradora aurora boreal. 

(...) Estava frio. Quase podia agarrar a fumaça da minha voz 
que se desenhava no ar. Aconcheguei-me recostada 
ao tronco de uma longa e velha árvore despida. Alguns devaneios, 
e os pensamentos sobrevoaram a canção violácea que penetrava 
as linhas finas do meu olhar cerrado. Adormeci sob o regaço dos céus, 
no colo da floresta branca.

(...) que a Terra dispa as vestes brancas do inverno 
e se prepare para receber a estação das folhagens de cetim 
e dos amores-perfeitos.


na tangibilidade do cordão da essência
entrelinha onde se afigura um corpo de sentidos absortos



(...) sinfonia utópica 
suada dos recantos mais velados

(...) a cada curva do universo
a cada estrela que se agarra
a cada dia que se apaga em noite árida

(...) a ecoar na sombra côncava do tempo

se eu pudesse
gravava o rio na minha alma

(...) fossilizava as imagens de areia
na superfície da minha pele

(...) então o rio nascer-me-ia dos dedos


invisível ao ouvido
mais do que acolher um luar perdido
desperta do sonho a canção de um surdo

(...) esse grito de silêncio






bato asas, e ao caír das plumas
no esvaldar das sombras
lanço-me no cativeiro das palavras ecléticas
(...) luar aprisionado
ao bailar dos pensamentos nus

(...) tela esculpida

em matéria de inocência




bailando ao som de um olhar
sem bússola...



descalça, arregaço o tempo 
num murmúrio mágico

canto o azul em movimento
bem fundo, abraço os corais

desintegro-me nesses mares 
e torno-me num deles

visto a maresia salgada
gravo os búzios de areia
mergulho extasiada

sou ondina, sou sereia


a contornar as visões etéreas
e desalinhadas do tempo
dos braços da árvore rasgada
ao colo da maresia

suspiros marinhos e beijos de coral
que o vento despe e guarda em mim







luzindo na madrugada de fogo
rito fugaz, seiva de rosa
esplendor em cor ardente

sempre que a paisagem corre
ao ruborescer da estrela de fogo (...)

os relógios param desalinhados no tempo

do esvoaçar da borboleta

ao cântico dos pássaros

(...)

estas são apenas algumas das formas
que Ele encontrou para nos amar



a imaginação flui
o pensamento constrói
e o sonho nasce.


   
gravita o silêncio no desatino de um grito
esmorece a palavra em tonalidade surda
louca desfragmento em lágrimas a saudade!


um estado d`alma que se manifesta
a cada verso que a Natureza (en)canta...




raiava a melodia Tu e Eu
no alto daquele monte

lugar encantado
onde o mar é horizonte

templo do mundo
onde as árvores falam


...mostraste-me que a utopia 
pode ser realidade
que através do amor 
tocamos o sonho...



(...) girassóis coloridos
sorriem para mim em pétalas desfolhadas
e se espalham por entre as sombras amareladas
dos pequenos asfaltos de terra.





(...) uma brisa enternecedora
de beijos de jasmim e eucalipto

(...) fazendo-me caír nos braços da pedreira
onde me diluo que nem aguarela
nessa mescla de ervas limão-cidreira



sonhos ansiados, pendurados na lua errante
de noite adormecidos, como segredos escondidos
na púrpura do tempo

(...) e o dia acorda desperto pelo sonho


 
quando a lua se deita 
sobre a colcha etérea do mar

símbolo errante, cristal d´água